Mantiké: uma experiência


Mantiké: uma experiência

Com a montagem do trabalho Mantiké, o Núcleo Le Hasard procurou aplicar a concepção de arte como veículo proveniente das pesquisas de Grotowski. Neste sentido, nosso primeiro passo foi a busca de elementos que pudessem ocupar a função de arquétipos,  fundamentais na composição das ações físicas e que pudessem abrir nossa consciência para energias mais sutis.

As ações físicas – para Grotowski são as ações do ator que geram as emoções, e não o contrário –, são os eixos de entrada e saída de um espaço ritual. Não correspondem a uma histeria, um exotismo; pelo contrário, o trabalho deve ser íntegro e, sem buscar exterioridades, ter o cuidado de um artesanato, preparando cuidadosamente o ator para uma via ascendente. Os estímulos que provocam as ações são como que iniciações que permitem aos atuantes uma maior intimidade com as potências essenciais que ligam as coisas no universo. Estas ações devem ser repetidas incessantemente até que o atuante tenha plena organicidade e precisão. Essa energia da verticalidade encontra-se em oposição, para Grotowski, a uma energia horizontal, mais orientada para as energias instituais, básicas, arcaicas.

Da tradição esotérica européia recuperamos, em Mantiké, a utilização ritual dos cinco elementos primordiais, referência que se encontra também, por exemplo, no shivaísmo.   Tomamos a liberdade de utilizar uma cadeia simbólica que permitiu aproximar estes elementos aos pontos cardeais do espaço ritual. Das culturas africanas apanhamos o uso de cânticos primitivos como uma mola capaz de impulsionar no ator a energia ancestral dos nossos antepassados, pois as vibrações neles presentes tendem para um estado de ânimo criativo e empolgante.         

Como nos orienta Grotowski, no teatro tradicional o encenador mobiliza uma gama de técnicas e de truques que permitem a ele construir um espetáculo, que possa ser mais ou menos compreendido por todos os presentes no momento da apresentação. Esse complexo de informações é elaborado para que o público tenha uma percepção sobre o espetáculo. Grotowski compara esta relação como um elevador, no qual o ator é o ascensorista. O espetáculo funciona quando o público é levado para outro lugar, para outra dimensão. No caso da arte veículo, é o ator, na percepção de si próprio, que se transporta, se eleva com suas próprias forças, é erguido até níveis mais sutis de energia e volta para o plano mais denso carregando esta parcela de energia.  Pode-se perceber então o quanto é importante a construção elaborada das ações físicas e da entrega que os atuantes têm de dispensar para o artesanato que se cobra neste trabalho.

A relação entre as coisas, entre o ser e a máxima alteridade, permite que construamos um caminho esotérico, no sentido defendido por Peter Lamborn Wilson: “todas as modalidades de estudo e posicionamento estratégico de ‘estados incomuns de consciência’ ou da experiência religiosa, (...) radicais o suficiente para escapar do discurso totalitário da autoridade mística ou religiosa”. Este modelo de liberdade visa à alteridade sem que se necessite de nenhum iniciador institucionalizado. Tradição dos espíritos livres.

O atuante deve mover-se para longe dos hábitos comuns e construir nova relação com seu corpo. Criar um espaço ritual, um entre-lugar, onde não se é e se está sendo.

O que na verdade se está buscando nesse entre-lugar é uma forma de construir nossa própria escada de entrada e saída desta alteridade, um espaço de troca e criação onde o homem possa se potencializar com todas as possibilidades de contato com as esferas mais sutis. A verticalidade é uma corrente que eleva, e não apenas um transe sem direção. É uma porta de entrada aos grandes centros do mundo. A possibilidade das inter-relações simbólicas é possivelmente a única saída para o homem contemporâneo.

Certamente o trabalho de Mantiké  encontra-se ainda em estágio de elaboração. Não podemos nos furtar à constatação da falta de apoio, no Brasil, a pesquisas desse gênero. Por outro lado,  quando falamos em tradição africana estamos um passo à frente dos pesquisadores europeus – é para nós uma vantagem estarmos imersos numa cultura tão rica e ter no sangue essas energias ancestrais.

Para finalizar, é importante ressaltar que a arte como veículo não é feita para apresentação –  somente em alguns poucos momentos deve haver uma troca com algumas poucas pessoas. Neste sentido, com Mantiké nos encontramos num movimento duplo e simultâneo de aproximação e afastamento. A noção de arte como veículo, na medida em que se propõe a dar continuidade às pesquisas de autores radicais como Artaud e Grotowski, não tem como preocupação nenhum fim espetacular, mas sim a reconciliação entre arte e vida. Há um paradigma a ser quebrado.


BIBLIOGRAFIA

ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. Martins Fontes, S. Paulo, 1993.
__________________Oeuvres completes. Gallimard.
BARBA, Eugenio. La terre de cendres e diamants, mon apprentissage em pologne.  L’entretien, Saussan, 2000.
BARRAULT, Jean Louis. Réflexions sur le theatre. Editeur Jacques Vautrain, Paris, 1949.  
CARLSON, Marvin. Teorias do teatro. UNESP, São Paulo, 1997.
COHEN, Renato. Work in progress na cena contemporânea. Perspectiva, S. Paulo, 1998.
________________Performance como Linguagem. Perspectiva, S. Paulo, 2004.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. Martins Fontes, S. Paulo, 1992. 
GROTOWSKI,  Jerzy. Em busca de um teatro pobre. Civilização Brasileira, São Paulo, 1976.
___________________O Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski,1959-1969. Perspectiva, S. Paulo, 2007.
ICLE, Jorge. O ator como xamã – estudos. Perspectiva, São Paulo, 2006.
TURNER, Victor W. O processo ritual: estrutura e antiestrutura. Vozes, Petrópolis, 1974
WILSON, Peter Lamborn. Chuva de estrelas – o sonho iniciático no sufismo e taoísmo. Conrad, São Paulo, 2004.


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